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27/07/10

"Sou um cidadão assim, comum, cuidadoso com o meio ambiente"

Em entrevista ao jornal O Estado, Marcelo Silva falou de suas angústias em ver a falta de planejamento nos setores estratégicos do Ceará, principalmente quando se refere a meio ambiente. Falou também de seus planos.

 

No último dia 21, quando a equipe do O Estado Verde dirigia-se para a entrevista com Marcelo Silva (PV), candidato ao Governo do Estado do Ceará, fui tomada de surpresa pela grandeza do comitê eleitoral de Cid Gomes. Quase às margens do Cocó, tantos cartazes, luzes, outdoors, banners e veículos. Grandioso e inibidor, sob a minha ótica. Eu não sei se me atreveria a entrar. 

O escritório do candidato do PV fica numa área, também nas proximidades do rio. Diferente, fica num imóvel residencial e nada ali anunciava uma campanha política. Literalmente, Marcelo aguardava a nossa equipe com a mão na mass: aguava o jardim do imóvel. “Sou um cidadão assim, comum, cuidadoso com o meio ambiente”, disse durante a entrevista.

 

Arquiteto, especialista em planejamento urbano Marcelo ressente-se do caos urbano que vivenciamos na cidade de Fortaleza, “fruto de gestões anteriores que nunca valorizaram o Planejamento Urbano”. O candidato reconheceu que na época de Lúcio Alcântara, houve uma tentativa de pensar a cidade. Hoje, a “prefeitura não tem controle urbano, tem uma Secretaria de Meio Ambiente muito capenga e um‘departamentozinho’ lá na Emlurb, com um orçamento ridículo para cuidar dos parques e das praças”. A cidade não tem uma política de planejamento urbano, haja vista as condições das parcas áreas verdes. 

Porém, na última quinta–feira (22), Rafael Tomyama,Célula de Políticas Ambientais da Semam – Secretaria do Meio Ambiente e Controle Urbano, de Fortaleza, relatou a esta editoria que dentro do Fórum da Agenda 21, está sendo criado um grupo de trabalho que vai discutir um plano de arborização para a cidade. Uma boa notícia!

Voltando ao Marcelo. Disse, caso eleito, que de sua experiência à frente da Prefeitura de Maranguape, implantaria o modelo do Projeto Pacto pela vida. Claro que atendendo às especificidades do Estado. A iniciativa envolveu a criação de 37 núcleos formados por pessoas simples, do povo. Discutiam necessidades e propostas de soluções nas comunidades. A administração participativa é fundamental para o candidato do PV.

 

A Entrevista>

O estado Verde entrevista hoje o representante do Partido Verde (PV) ao governo do Estado. Ele considera que assim como o meio ambiente, outro grande desafio nosso, é fazer a revolução cultural.

 
[OeV] O que a atual administração está realizando na área ambiental que o candidato daria prosseguimento ou não?
Marcelo Silva: Iria rever a criação do Conpam – Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente. O assunto devia ter sido mais debatido. Tá certo... tínhamos uma Secretaria do Meio Ambiente, entre aspas, que só se preocupava com o Selo Verde.
 
Secretaria tem um peso muito maior do que Conselho. Temos a Semace. De acordo com a Lei, pelas atribuições, Conpam e Semace não se chocam, mas quanto à gestão, em minha opinião, competem. Não era para ser assim! Faltou uma discussão maior por parte do governador com relação ao assunto meio ambiente. Estratégico, importante e transversal, perpassa por todos os setores, segurança, educação, saúde, agricultura e etc. Não justifica ter atendido a sugestão de alguns “iluminados”, próximos, e sugerir acabar com a Soma para criar um conselho. Uma secretaria tem muito mais força. O assunto merece ser mais discutido.
 
[OeV] Foi contra ou a favor da construção do estaleiro em Fortaleza?
Marcelo Silva: o estaleiro é um bom exemplo de comprovada falta de planejamento. Não tem cabimento uma proposta de interesses meramente econômicos, sem qualquer análise ambiental, não discutida com a sociedade. Simplesmente, um grupo decide que as condições físicas ideias para montar uma fábrica de navio estão no Titanzinho. Não nego que pode ser uma oportunidade de riqueza, emprego, renda, mas é mandatório discutir com a sociedade, com a academia com os ambientalistas.
 
Fortaleza tem que preservar sua paisagem ambiental, ela não pode matar a sua galinha dos ovos de ouro, como o Ceará, as paisagens e belezas naturais. A galinha dos ovos de ouro de Fortaleza é a nossa orla marítima e sua paisagem bela. E é isso que traz o turista. Se Fortaleza não tivesse esse patrimônio natural não teríamos turistas por aqui. Tem ainda a questão da referência cultural da região do Tirtanzinho. Ali, são formados, talvez, alguns dos maiores surfistas do mundo. É significativo, simbólico e de repente queriam colocar uma fábrica de navio ali? Pelo amor de Deus. É a predominância apenas da visão mecanicista, foca um só aspecto econômico. Toda ação que gera impacto tem que ser avaliada sob todos os aspectos, social, ambiental, econômico e cultural.
 
[OeV] Então assina endossa a decisão da prefeita Lins?
Assinei embaixo! Nós saímos com uma nota. O Partido Verde foi o único partido que em tempo, saiu com uma nota oficial colocando-se contra a implantação do estaleiro no Titanzinho. Não só no Titanzinho, mas em toda a orla marítima de Fortaleza.
 
[OeV] Qual a sua avaliação para o Sistema Estadual de Unidades de Conservação? É favorável a criação de mais RPPNs?
Marcelo Silva: O problema é tirar do papel. Tá na legislação, mas não está na prática. As unidades foram criadas, mas não tem monitoramento ou controle ambiental, não tem plano de manejo. Basta observar as serras úmidas do Ceará, estão passando por uma crise de devastação enorme. Não falo mais nem do Maciço de Baturité, mas falo de outros biomas, resquícios de Mata Atlântica.
 
Maranguape é um caso a parte, diferente. Foi a primeira Área de Preservação Ambiental criada por um município, no Estado do Ceará. Quando fui vereador criei a Lei e em seguida assumi a função de prefeito municipal e dei continuidade ao processo de preservação da Serra. Hoje, é outra realidade, um exemplo. Os constantes desmatamentos na época de chuvas, deixaram de existir. Ano passado, mesmo com o forte inverno, a serra não sofreu qualquer impacto. O pessoal comenta na cidade: “O responsável é o Marcelo, ele controlou, plantou, recuperou, cuidou.”
 
[OeV] O que Marcelo Silva traria de sua administração a frente da Prefeitura de Maranguape, para aplicar nos demais municípios na condição de governador, caso eleito?
Marcelo Silva: Gostei da pergunta! Eu tenho certeza que a metodologia seria muito parecida, considerando claro, as especificidades de um Estado e não de um Município. Primeiro, participação popular. Tínhamos um trabalho chamado “Pacto pela vida” com mais de 37 núcleos formados por pessoas simples, do povo que discutiam necessidades e propostas de solução. O cenário é outro, mas a participação popular nas discussões dos problemas e das propostas ainda é fundamental. 
No caso da saúde temos um bom exemplo vindo de Maranguape quando juntamos o saber popular das rezadeiras com o saber científico dos profissionais da saúde. Criamos o Projeto Soro em Rezas e o resultado foi a diminuição surpreendente da mortalidade infantil e a eliminação da diarréia com morte. Com poucos recursos, de modo simples e percebendo a prática local de levar crianças para as benzedeiras, modificamos uma situação de caos na saúde municipal. 
Dou o exemplo da preservação do Patrimônio Natural e Cultural. Já falei da serra, vamos falar agora da preservação da identidade cultural da cidade. Em Maranguape recuperamos a autoestima do maranguapense a partir da recuperação de praças e do casario.
Uma política para a juventude, potencializar os valores locais mais uma vez. Em Maranguape, eu fiz uma escola onde os alunos tinham prazer de frequentar. Desde a concepção, foi projetada para ser diferente dos padrões que estamos habituados a ver. O arquiteto potencializou as qualidades do clima local e os jovens moradores do entorno e alunos, participaram da pintura. Denominada Escola Direitos Humanos (nada de nomes póstumo) ela tem muros baixos que caracteriza de forma significativa a relação próxima da comunidade com o equipamento público, e nunca foi “pixada”.
 
[OeV] Fortaleza está bela, está feia ou é bela? O que fazer para alterar a situação de caos urbano que vive a cidade, especialmente a região central? 
Marcelo Silva: Eu sou urbanista (risos) esta é a minha praia e esta é uma boa pergunta para mim. Fortaleza é bela por natureza, mas esta natureza está acabando. Os recursos naturais que Deus nos deu, a orla marítima que é um presente, essa praia fantástica, as nossas lagoas, os nossos riachos, não temos mais rios, temos praticamente o Cocó e o Maranguapinho. Mas isso é fruto de gestões anteriores que nunca valorizaram o Planejamento Urbano, nunca. Eu digo isso porque sou servidor da Prefeitura Municipal de Fortaleza, sou arquiteto. 
Entra a questão do Sistema Viário Básico. A Prefeitura não tem controle urbano, tem uma Secretaria de Meio Ambiente muito capenga, não tem pernas e não tem fiscal. E ainda tem a questão da migração campo cidade que continua.
 
Fortaleza não tem planejamento urbano e, por isso, chegou ao ponto que está. Há muito tempo que não tem. Vou ser justo, teve na época de Lúcio Alcântara. Hoje, não temos uma política de áreas verdes em Fortaleza. Tem um “departamentozinho” lá na Emlurb, com um orçamento ridículo para cuidar dos parques e das praças.
 
Entra a questão do sistema viário básicoPlanef
[OeV] O senhor gostaria de fazer algum comentário sobre a polêmica que cerca a reforma do Código Florestal? 
Marcelo Silva: Absurdo! Lamentável! E você tem a frente, um dito esquerdista, Aldo Rebelo, do PCdoB. Ele está atendendo os interesses dos grandes devastadores da Natureza do País. E o pior, é inconstitucional. É uma proposta ridícula.
[OeV] O ICM Ecológico é um bom instrumento de Política Pública? 
Marcelo Silva: Foi uma proposta nossa. Quando apoiamos o Cid, fizemos uma carta de recomendação e lá estava o ICM Ecológico,....mas ainda não foi aplicado. É um ótimo instrumento, uma experiência que começou no Paraná.
 
[OeV] Pioneiro, o Estado do Ceará criou o 1º Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Caatinga (RBCA), através de Decreto Estadual em 2004. Passados seis anos a situação do Bioma é crítica e o Ceará recebeu o título de maior devastador da Caatinga. Alguma observação?
Marcelo Silva: Uma coisa é criar e colocar no papel, outra coisa é aplicar a Lei, fazer acontecer. De leis fantásticas o Ceará tá cheio, o Brasil tá cheio, falta o poder coercitivo. A caatinga não pode ser considerada como um mal, é um bioma fundamental, um patrimônio natural, único e riquíssimo, apenas é tratado de forma errônea. Nós não temos um modelo social, econômico e ambiental adequado a caatinga.
 
[OeV] Com relação a gestão dos recursos hídricos o candidato tem alguma colocação a fazer? 
Marcelo Silva: Foi onde o Ceará avançou. Desde o governo Tasso, com a criação da Secretaria de Recursos Hídrico temos tido bons gestores. Recentemente o Pacto das Águas. Vamos fazer justiça, o Ceará tem feito um bom trabalho.
 
[OeV] Gostaria que o candidato falasse sobre gestão de resíduos sólidos.
 
Marcelo Silva: Olha, vai explodir já, já, uma crise aqui em Fortaleza. Todo mundo sabe dos riscos, e os aterros estão quase saturados, especialmente o de Caucaia. O de Maracanaú tá uma “zorra”! Quando explodir vai ser de uma vez. É preciso uma política mais responsável que favoreça a reciclagem. Já temos tecnologias, como o reaproveitamento do metano.
 
[OeV] Pernambuco acabou de aprovar a sua Política Estadual de Combate as Mudanças Climáticas
Marcelo Silva: Com certeza vou priorizar políticas de combate às mudanças climáticas. As maiores vítimas são populações mais pobres. É fundamental um plano para combater os impactos das Mudanças Climáticas, principalmente, nós, que vivemos no semi-árido. A desertificação já é uma realidade, não mais uma ameaça. Principalmente o Nordeste vai ser atingido. Minha expectativa é que o ICID 18, coordenado por Antônio Rocha Magalhães traga muitas luzes aos governantes para o empreendimento de ações de mitigação e combate aos efeitos do aquecimento global aqui no Ceará, especialmente. Precisamos também, fazer o nosso inventário de emissões, como fez o secretário Eduardo Jorge, em São Paulo.
 
 
[OeV] O cidadão Marcelo Silva, na sua essência, no seu dia a dia, é preocupado, comprometido com a questão ambiental, é cuidadoso com o meio ambiente? Exemplifique.
 
Marcelo Silva: Agora a pouco, no meu jardim, você me pegou aguando o jardim (risos), com a mão na massa. Sou um cidadão assim, comum, cuidadoso com o meio ambiente. É a questão da coerência, também. Eu não embeveço pelo poder, já passei por isso. Tenho pena de quem chega ao poder e transforma-se em outra pessoa. Devemos cuidar para sermos líderes e não chefes. Assim como a Marina, eu prefiro ser injustiçado que protagonizar injustiças, assim como disse a Marina Silva.
 
O meio ambiente deve estar no dia a dia de todos e de tudo, mas considero a questão da cultura um fator de alta relevância para uma sociedade. O nosso maior desafio é fazer uma revolução cultural. Destinaria, para começar, 5% para cultura. Cultura não pode ser resumida em shows de forró eletrônico. 
 
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